domingo, 24 de outubro de 2010

Educação Pela Pedra

Tópico dsobre o livro de 48 poemas de João Cabral de Melo Neto

20 comentários:

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  2. João Cabral de Melo Neto

    O Relógio

    1.
    Ao redor da vida do homem
    há certas caixas de vidro,
    dentro das quais, como em jaula,
    se ouve palpitar um bicho.

    Se são jaulas não é certo;
    mais perto estão das gaiolas
    ao menos, pelo tamanho
    e quadradiço de forma.

    Uma vezes, tais gaiolas
    vão penduradas nos muros;
    outras vezes, mais privadas,
    vão num bolso, num dos pulsos.

    Mas onde esteja: a gaiola
    será de pássaro ou pássara:
    é alada a palpitação,
    a saltação que ela guarda;

    e de pássaro cantor,
    não pássaro de plumagem:
    pois delas se emite um canto
    de uma tal continuidade

    que continua cantando
    se deixa de ouvi-lo a gente:
    como a gente às vezes canta
    para sentir-se existente.

    2.
    O que eles cantam, se pássaros,
    é diferente de todos:
    cantam numa linha baixa,
    com voz de pássaro rouco;

    desconhecem as variantes
    e o estilo numeroso
    dos pássaros que sabemos,
    estejam presos ou soltos;

    têm sempre o mesmo compasso
    horizontal e monótono,
    e nunca, em nenhum momento,
    variam de repertório:

    dir-se-ia que não importa
    a nenhum ser escutado.
    Assim, que não são artistas
    nem artesãos, mas operários

    para quem tudo o que cantam
    é simplesmente trabalho,
    trabalho rotina, em série,
    impessoal, não assinado,

    de operário que executa
    seu martelo regular
    proibido (ou sem querer)
    do mínimo variar.

    3.
    A mão daquele martelo
    nunca muda de compasso.
    Mas tão igual sem fadiga,
    mal deve ser de operário;

    ela é por demais precisa
    para não ser mão de máquina,
    a máquina independente
    de operação operária.

    De máquina, mas movida
    por uma força qualquer
    que a move passando nela,
    regular, sem decrescer:

    quem sabe se algum monjolo
    ou antiga roda de água
    que vai rodando, passiva,
    graçar a um fluido que a passa;

    que fluido é ninguém vê:
    da água não mostra os senões:
    além de igual, é contínuo,
    sem marés, sem estações.

    E porque tampouco cabe,
    por isso, pensar que é o vento,
    há de ser um outro fluido
    que a move: quem sabe, o tempo.

    4.

    Quando por algum motivo
    a roda de água se rompe,
    outra máquina se escuta:
    agora, de dentro do homem;

    outra máquina de dentro,
    imediata, a reveza,
    soando nas veias, no fundo
    de poça no corpo, imersa.

    Então se sente que o som
    da máquina, ora interior,
    nada possui de passivo,
    de roda de água: é motor;

    se descobre nele o afogo
    de quem, ao fazer, se esforça,
    e que êle, dentro, afinal,
    revela vontade própria,

    incapaz, agora, dentro,
    de ainda disfarçar que nasce
    daquela bomba motor
    (coração, noutra linguagem)

    que, sem nenhum coração,
    vive a esgotar, gôta a gôta,
    o que o homem, de reserva,
    possa ter na íntima poça.

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  3. A secura, precisão, concisão linguística, desprezando qualquer indício de sentimentalismo, é um dado fundamental na poesia de joão Cabral.

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  4. Observem o paralelismo sintático dos versos "A gente de uma capital entre mangues" e "A gente de uma Caatinga entre secas", do poema Fazer o seco, fazer o úmido. Esse paralelismo constrói dois quadros visuais: literal e sertão.

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  5. No Poema Catar Feijão, percebemos também, uma comparação de fazer poema com catar feijão, selecionando as melhores palavras, as palavras mais 'enxutas' para dar precisão ao poema. Nesse poema percebemos uma função de linguagem Metalinguistica, que é um texto mostrando como se fazer outro.

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  6. Blz, Valber. A refeflexão em torno do próprio fazer poético é recorrente na poesia de João Cabral, a exemplo do que ocorre com o poema "Catar feião", conforme você aponta.

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  7. Só teve um poema que eu consigui entender sem ajuda,foi "O urubu mobilizado" nele joãozinho fala que o urubu é um profissional da seca, que ele fica esperando aparecer um trbalho(vítima da seca)e que é considerado como bicho mais desprezível, mas que espera a morte de ricos e pobres,se sobrepondo a ambos.

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  8. Muito bom, Leo, seu comentário. Agora, observe que a problemática da seca é tema no livro As velhas: "Será que você num via a urubuzada nas carniça dos bicho morto, as ossada quarando no sol [...]?"

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  9. apareci õ/

    Consegui entender o significado do nome do livro: A EDUCAÇÂO PELA PEDRA. Assim como em seus poemas, João Cabral foge de todas as formas do sentimentalismo, do uso de várias palavras para chegar a um objetivo e dessa forma ele compara a realidade brasileira, onde somo levados por nossas emoções, pelo nosso coração e não pela realidade crua, que segundo ele, o simbolo de frieza e de rigidez esta na pedra. Pedra- objeto imaleável, educação rigida, fria. Nós brasileiros tivemos uma educação pela água, onde nos adequamos a qualquer coisa, nos deixando levar pela emoção, sentimento, por palavras bonitas ,porém sem nenhum objetivo concreto.
    Para Cabral as pessoas devem ser educadas pela pedra e não pela água.
    Um forte personagem brasileiro educado pela água é o nosso famoso MACUNAIMA, cheio de dengo, preguiça, acomodado, despreocupado, nunca luta por nada sempre espera da boa vontade alheia.
    OUtra caracteristica que já comentamos em sala é a forma dos poemas de João Cabral, ele planeja toda a sua estrutura propria para depoiss encher os espaços de palavras e de prefencia o uso de substantivos concretos, coisas que possamos ver, e não os abstratos (amor,saudade, carinho etc..)

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  10. 1. (FDV) O poema que dá o título da obra A educação pela pedra apresenta tais características, com exceção de:

    (A) reflexão metalingüística;
    (B) elaboração formal;
    (C) lirismo sem sentimentalismo;
    (D) individualismo subjetivista; <---
    (E) construção arquitetônica do verso.

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  11. UFV) Leia atentamente o poema abaixo, de João Cabral de Melo Neto:

    A educação pela pedra

    Uma educação pela pedra: por lições;
    para aprender da pedra, freqüentá-la;
    captar sua voz inenfática, impessoal
    (pela de dicção ela começa as aulas).
    A lição de moral, sua resistência fria
    ao que flui e a fluir, a ser maleada;
    a de poética, sua carnadura concreta;
    a de economia, seu adensar-se compacta:
    lições de pedra (de fora para dentro,
    cartilha muda), para quem soletrá-la.

    Outra educação pela pedra: no Sertão
    (de dentro para fora, e pré-didática).
    No Sertão a pedra não sabe lecionar,
    e se lecionasse não ensinaria nada;
    lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
    uma pedra de nascença, entranha a alma.

    (MELO NETO, João Cabral de. A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. p. 21.)

    Assinale a alternativa que NÃO traduz uma leitura possível do poema acima:

    (A) O poeta apreende da pedra a própria vivência na vida agreste do Sertão: de austeridade, resistência silenciosa e sempre capaz de dar lições de vida e de poesia.
    (B ) Os versos metalingüísticos revelam a própria poética cabralina: concreta, impessoal, concisa, embora profundamente social.
    (C) Ao partir do pressuposto de que a pedra é muda, e, portanto, não ensina nada, o poeta suscita uma reflexão sobre a situação educacional precária no Nordeste.
    (D ) O eu lírico também apreende da pedra os próprios versos enxutos, num esforço de dissecação de quaisquer sentimentalismos.
    (E ) No poema, de intensa economia verbal, a pedra faz-se metáfora da paisagem do Sertão, que “entranha a alma”, e espelha o fazer poético do autor pernambucano.

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  12. 3. (UFV) Leia com atenção as seguintes afirmações a respeito da obra A Educação pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto:

    I. Neste livro, o engenheiro-poeta extrai dos motivos nordestinos e espanhóis a matéria bruta para a construção dos versos pautados pela discursividade lógica da sintaxe, despoetização e anti-musicalidade – recursos intensamente utilizados na literatura contemporânea.

    II. A temática, principalmente centrada em motivos nordestinos, é utilizada pelo autor como imitação do romance social dos anos 30; daí a proposta de aprendizagem de uma poesia mais engajada e popular, em linguagem menos complexa.

    III. No livro, como em grande parte da poesia da modernidade, são constantes os poemas metalingüísticos, expressivos da tentativa do poeta de apreender seu próprio processo de construção poética, e extrair lições da realidade – sua e da própria linguagem.

    É CORRETO apenas o que se afirma em:

    (A) I.
    (B ) I e II.
    (C) I e III. <----
    (D ) II.
    (E ) III.

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  13. Por que será que o enunciado II da questão 3 está errado?

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  14. liguagem menos complexa,só se for pra ele(joãozinho)!!!

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  15. No poema Rio sem discurso, ele retrata a problemática dá seca em relação aos rios,mostra que quando o rio seca ele se transforma em varios poços,onde esse poços são comparados a palavras em relação ao dicionário,soltas sem nexo,pois o rio em que os ligava secou.O poema também retrata que depois que o rio seca dificilmente ele retorna,mostrando assim como a falta de precipitações no nordeste modifica a paisagem,sendo esse tema retratado em varios outros poemas.

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  16. Outro poema bem interessante é Duas das festas da morte,onde mostra as diferenças de duas classes sociais,a pobre e a rica,na situação da morte.
    Para o rico a morte é o ápice de seu explendor econômico e social.
    Para o pobre a morte é natural,principalmente as mortes de crianças,onde a morte se torna algo banal,um motivo para faltar a escola.

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  17. De um modo geral, podemos perceber nos poemas de João Cabral de Melo Neto poesias anti-líricas e anti-sentimentalistas; a presença da metalinguagem, aliteração, antítese, do paralelismo sintático, elipse, jogo fonético, metáfora, entre outros que tornam essa obra riquíssima.
    Mas os poemas desse livro para serem interpretados precisam de muita atenção e de muita criatividade, afinal temos que deduzir o que as palavras querem nos mostrar. E a sua linguagem é muito complexa.

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  18. Muito bons os comentários, Karla, Leo e Crislayne.

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  19. Adalberto,tenho 3 duvidas.

    1°No poema 'Sobre o sentar-/estar-no-mundo',joãozinho está falando do preconceito aos negros?

    2°No poema 'Uma ouriça', de quem o poema está falando ?

    3°No poema 'A cana-de-açúcar' de agora,o poema está falando sobre o que ?

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  20. Leo, a ideia central de "Uma ouriça" é: o animal (ouriça) parece prestes a ser atacado (1º verso), como defesa este animal se fecha (arma de defesa - bélico e multiespinhenta). Na segunda estrofe, sem a possibilidade de ser atacada, o animal se desouriça, isto é, se abre ("reconverte"), volta a sua normalidade.
    No caso de "A cana-de-açúcar de agora", vejo duas ideias/quadros básicos: o tempo dos engenhos - o modo artesal de explorar a cana, e o tempo das usinas - o modo industrial, tecnológico de explorar a cana.
    Blz
    Depois vejo esse outro.

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